LINK “SÓ UM AMIGO - PARTE II”
É difícil dizer o quanto queremos algo quando as palavras nos faltam ou ainda não temos certeza do desejo ou querer por algo ou alguém.
Já passava das oito e meia e a claridade começava a vencer a barreira das cortinas e me despertava de outra noite de sono mal dormida. Viro de um lado para o outro, me levanto, lavo o rosto. Nada parece surtir efeito.
E com o mais simples mover da cama consigo ouvir patas no assoalho vindo me desejar um bom dia.
-Bom dia, amigão.
Deixo Matt para trás e começo meu dia. Algo tão desinteressante e comum que deveria ser um crime. Banho, dentes, café, dentes, cama arrumada, roupas… tudo numa ordem cúmprida sacramente todos os dias.
Ir para o trabalho é sempre algo chato. Arquitetura não era o que queria pra mim, mas por enquanto é só o que tenho. Sem opções, sem escolhas. Lá, pessoas esquisitas e tão frias quanto eu parecem se arrastar pelos corredores de um escritório luxuoso na capital paulista em busca de cumprir por obrigação a carga horária. Sempre me sinto melhor ao saber que não sou o único infeliz que trabalha por lá.
-Taxi!
Hora de ir. O caminho sempre parecendo uma fresca pintura embasada com a mão é a única distração que tenho tido ultimamente e, mesmo sendo quase ilegível, eu venho decorando cada traço indefinido dessa gigante pintura.
O quadro acaba e tudo o que tenho no momento é o escritório. Como arquiteto eu posso dizer que é um “Lugar Inteligente”, como humano eu chamo lá de “Fosso”. E nesse Fosso eu perco sete horas do meu dia. Fico esperando anciosamente pelo o fim daquilo. A cada quinze ou vinte minutos eu olho na esperança que ao menos duas horas já tenham se passado, mas, como eu já disse, são apenas quinze ou vinte minutos passados desde a última consulta ao relógio. Vinte e oito olhadas depois, respiro aliviado pois finalmente minha consulta corresponde as minhas expectativas. Hora de deixar o recinto.
De acordo com o céu e o relógio é o meio da tarde. Qualquer outra pessoa que trabalha em algo fácil e pouco exigente como eu sairia do escritório e iria a algum outro lugar, mas sinto minha energia drenada ao último após cada dia de trabalho. O único lugar que eu queria estar agora era em outro táxi indo para casa.
A fresca pintura se repete diante de mim, mas dessa vez com tons mais quentes, claros e envelhecidos. De um jeito simples e bobo a pintura “Indo para a Casa” sempre me causa mais admiração do que a “Indo para o Fosso” e poder admirar esses tons quentes é um pequeno prazer que encontro após cada amostra de stress.
Deixo o táxi em direção a portaria do condomínio em que vivo junto com Matt.
Matt. A única companhia de quem não me canso. Ele está sempre ali, grande, amarelo, com uma bolinha na boca e um sorriso em potencial. Tive a sorte de acha-lo no meio de minha adolescência. Ele foi o melhor psicólogo que já tive para cuidar dos desequilíbrios comportamentais de causas hormonais que essa época trás aos humanos, e ele continua sendo até hoje.
Chaves no miolo. Abro a porta e patas aceleradas no assoalho me trazem o alivio e a confirmação de que Matt ainda esta ali. Deixo minhas coisas sobre a mesa e me jogo no sofá. A partir desse momento eu costumo cair num sono profundo que trás de volta quase tudo o que perdi de energia no trabalho. Mas antes disso, sempre retrospeto meu dia. Uma vez li que isso ajuda com a memorização e melhor organização.” Acordar, me arrumar, sair, quarenta e cinco minutos, chegar, trabalhar quatro horas, comer, trabalhar duas horas, sair, quarenta e cinco minutos, chegar, chaves, porta, patas no assoalho, sofá…
Com uma certa dificuldade abro meus olhos com uma visão ainda embassada e confusa trazida pelo sono. Duas horas e dez minutos depois de apagar me mostram o quanto eu já pude reabsorver quase plenamente as energias que me foram roubadas. Abro meus olhos, me sento. Na minha frente os livros roubam na estante gigante minha atenção mais do que Matt ou a tv, mas ignoro essa vontade para retoma-la mais tarde, antes de dormir.
Me levanto, sigo até o banheiro, me dispo e entro no banho. Trinta minutos se passam e resolvo sair respingando em busca da toalha mais próxima em que eu possa me enxugar. Me enxugo, volto a me vestir, penteio o cabelo e me sento no sofá, só que dessa vez não estou há mais cansaço. Pego o meu notebook, checo e-mails e vejo algumas notícias. Nada interessante. Sigo buscando algo para fazer até que Matt me trás a sua guia na boca, é a hora dele passear. Fecho as portas, confiro as janelas e pego as chaves. Matt não é muito bem vindo pelos colegas condôminos, mas nós não nos importamos muito com isso, já que ainda não foi criada nenhuma regra contra animais no prédio.
Descemos as escadas, passamos a portaria e chegamos a calçada.
São Paulo não é um lugar muito bom para se praticar esportes em meios urbanos, mas ainda sim faço uma forcinha para sair de vez em quando para praticarmos algum esporte.
Começamos a correr por entre as ruas do bairro, em meio as outras pessoas que passam apressadas pelas ruas. Elas parecem não se incomodar em viver com pressa ou o cheiro do carbono. Eu mesmo só me acostumei á pouquissimo tempo.
Tento admirar o que posso pelo caminho. Coloquei os fones de ouvido e Florence Welch se torna a trilha sonora para o momento. Os prédios cada vez mais altos impedem a mim e mais algum outro de tentar ver o céu, mas isso não é desculpa para não tentar. Lanço o meu olhar alto e desvio de qualquer barreira que possa me tampar a vista celeste.
Corro, caminho. Sigo assim por um longo tempo, quase sem parar. Até que finalmente chego a uma das pouquissimas ruas calmas dali e resolvo aproveitar o momento. Aumento o som, afrouxo a guia e fecho os olhos. Passo a correr com vontade como não fazia a tempos. Prazer e sedação dominam meu corpo de forma quase instantânea. Sinto como se eu estivesse flutuando por entre nuvens de concreto. Entro num transe hipnótico e nada me traria de volta. Livre e cego, deslizei alegremente pela rua.
Dor.
Senti um impacto frontal que me levou a cair. Foi como se eu estivesse voando por entre as nuvens e surgisse um prédio gigante que me obrigasse a parar com uma colisão e logo depois eu caisse rapidamente ao chão. Deitado na calçada, segurando a guia e o Matt lambendo meu rosto, tentei inutilmente me levantar, mas fui impedido pelo típico trauma pós queda que atinge a todos nós. Tentei novamente e obtive sucesso. Abri meus olhos de maneira fraca e sem vontade, minha vista estava meio embaçada e eu confuso, ainda tentando entender o que me abateu. Quando chego em plena consciência novamente, observo logo na minha frente um outro homem sentado, aparentemente também recém levantado que estava olhando para mim.
Ele aparentava uns vinte e seis anos e parecia mais alto que eu, tinha os olhos castanhos cor de mel, mas sem ser muito claro com uns pequenos traços na cor cinza, cabelos castanhos escuros levemente ondulados nas laterais, o corte era irregular e relaxado, mas sem deixar a beleza. Seu rosto, tinha a feição fria e forte e seu corpo era esguio e atlético. Eu não deveria estar reparando tanto nele, mas é que me parecia muito errado ignorar uma beleza tão simples e elegante. Ele também estava me olhando, só que apenas para os meus olhos. Bem no fundo deles. Quase como se tentasse enxergar algo dentro deles.
Forte e grave, os latidos de Matt nos despertaram para a situação em que nós estavamos: Dois homens sentados na calçada, com várias coisas esparramadas ao redor. Ambos começaram a recolher o que havia caído. Ao nosso redor haviam livros caidos da bolsa que rasgou assim que atingiu o chão, um celular e um pequeno caderno de anotações. Peguei o que estava ao meu alcance, me levantei e estendi o braço para ajuda-lo. Depois disso me lembrei de abrir a boca:
-Me desculpe. Eu estava correndo por aqui e me esqueci que de vez em quando passam outras pessoas nessa rua. Mil perdões. Não foi minha intenção esbarrar em você. Te juro.
Naquele momento, os olhos antes frios e estáticos ganharam vida e passaram a me olhar de outra maneira, quase como um sorriso.
-Não, tudo bem. Não foi só culpa sua. Eu que deveria também olhar o que estou fazendo, me distrai com esses livros e perdi a noção do movimento.
A empatia foi intensa. Empático até demais, pelo menos pra mim.
Eu sou uma pessoa fria e técnica por costume e isso me faz uma pessoa que não acredita em muitas coisas, como empátia, amor e outras coisas sem que haja uma base concreta para que isso pudesse ser dito ou sentido e, além do que, nós não haviamos trocado mais que vinte palavras.
-Esse cachorro é seu?
-Ah, é sim. Esse é Matt.
O homem me deu a guia que deixei escapar enquanto recolhíamos as coisas. Depois disso, um silêncio eterno e estranho se instalou e o agravante da situação é que eu não conseguia dizer nada. Muito menos me despedir.
Já fazia algum tempo que eu não sentia aquilo e relutava fortemente para que aquilo não fosse o que eu estava pensando. Dá última vez que aquela sensação tinha passado por mim, havia me deixado muitas cicatrizes e eu não estava pronto para tocá-las de novo. Mas já faz tanto tempo, será que não já esta na hora de seguir em frente?
Estavamos de novo nos encarando de modo estático, mas dessa vez era eu quem buscava algo nos olhos dele, eu só não sabia exatamente o que.
Aquela voz recente, mas já familiar me puxou de volta.
-Então, você está bem?
Eu demorei a responder por estar meio paralisado pensando naquela sensação, mas percebi que eu deveria estar parecendo um retardado olhando para ele sem dizer nada.
-Ah, sim. Comigo está tudo bem. - Eu ri de maneira nervosa enquanto falava tentando demonstrar que estava tudo bem. - E contigo?
-Tudo certo também…
Enquanto ele começava a falar Matt começou a brincar ao redor de nós dois, até que ele pulou em cima do homem e ele quase caiu novamente, mas dessa vez eu consegui segurar ele pelo braço que deslizou pela minha mão até que elas se tocaram… Foi mágico. Eu pude segurar a ele mas não o celular dele, que veio ao chão logo em seguida. Naquele momento eu quis morrer. Me ajoelhei rapidamente para pegar o celular que havia quebrado a tela. Meu rosto ficou tão quente sendo preenchido por sangue que demonstrava a minha vergonha com relação ao momento.
-Matt, olha o que você fez… Moço, perdão de novo. Ele não costuma ser assim. Me passe o número do seu telefone, eu irei te comprar um celular novo. Quer dizer, você tem um Telefone, certo? Assim, além do celular… ou não?
Um sereno e leve sorriso tomou o rosto dele.
-Não precisa. Tudo bem, eu sei como são cachorros, também já tive um.
-Não, mas eu insisto. Por favor, é o minimo que eu posso fazer.
Com muita vergonha pelo acontecido eu peguei o um cartão pessoal que ele me passou, eu dei meu celular a ele e me despedi dele.
-Olha, amanhã cedo eu vou comprar um celular novo pra ti e te ligo no meu número ou em um dos seus. Agora eu já vou antes que aconteça mais alguma coisa.
-Ei, mas antes me diga ao menos o seu nome.
-Ahh, é mesmo. É Leonardo.
-O meu é Felipe.
Ele terminou a frase com um pequeno sorriso. Virei as costas e comecei a caminhar de volta pra casa. Conhecia uma atalho e cheguei em casa em vinte minutos. Subi as escadas, abri a porta e me sentei bruscamente no sofá emitindo um suspiro de alivio.
Ainda bem que acabou, pensei.
A partir desse momento segui para o banheiro novamente e tomei banho, me troquei, penteei o cabelo, fui até a sala, liguei a tv no telejornal e resolvi pedir algo para comer. Uns trinta e cinco minutos depois a portaria me avisa da entrega e sobe o meu pedido. Resolvi comer uma salada. Não estava com muito estomago para algo mais pesado. Joguei fora o que veio junto com a salada e resolvi, que era hora de descançar. Desliguei a tv, escovei meus dentes, e fui até minha cama. Apaguei as luzes e deixei o abajour ligado para acompanhar minha leitura. Puxei o livro de cabeçeira para o meu colo e comecei a ler. Para ser mais exato eu não li, mas eu juro que tentei. Cada palavra que eu lia não se fixava na minha cabeça. Foi como tentar encher um copo sem fundo. Mas não ter foco e concentração para ler não foi o que mais me irritou, o pior foi ter de admitir pra mim mesmo que a atenção que me faltava pro livro estava fixa no sorriso e nos grandes e castanhos olhos daquele moço. Deslizei pela cama até a beirada aonde pude me levantar, fui até a minha mochila e peguei o cartão.
-Olha, Matt, ele é Publicitário.
Fiquei pensando em como deve ser a vida dele. Os amigos, os gostos, a família… Fiquei pensando naquele sorriso. Fiquei pensando nele.

Do seu Amigo de Sempre,
Leonardo De Abreu.